segunda-feira, 2 de novembro de 2009

PAC em barriga de aluguel

evento sobre grandes represas hidrelétricas no rio Madeira, do qual participei em La Paz (Bolívia) em maio de 2009. Na ocasião, fui convidado por biólogos peruanos para um evento semelhante em Lima, no Peru. Aceitei, mesmo sem entender bem por que o Peru estaria preocupado com a questão das hidrelétricas próximas à fronteira Brasil-Bolívia. Ao chegar ao evento, apoiado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês) e realizado na Universidade Cayetano Heredia em 24 e 25 de agosto deste ano, entendi tudo e fiquei de cabelo em pé: o Brasil propôs – e o Peru aceitou – a construção de até seis grandes represas hidrelétricas nas encostas amazônicas da Cordilheira dos Andes, com projeto e execução de empresas brasileiras e financiamento do BNDES. O Brasil compraria cerca de 80% da energia produzida.
O primeiro projeto, que custaria uns quatro bilhões de dólares, seria o de Inambari, construído na confluência dos departamentos (estados) de Madre de Dios, Cuzco e Puno e com potência instalada de 2.000 megawatts (MW). Inambari seria, em termos de geração de energia, a maior barragem do Peru e a quinta maior da América Latina, com uma área de inundação de mais de 46.000 hectares. Posteriormente, seriam construídas as barragens de Sumabeni (com 1.074 MW de potência), Paquitzapango (2.000 MW), Uru-bamba (940 MW), Vizcatan (750 MW) e Chuquipampa (800 MW). O pacote todo (com as seis obras) sairia supostamente por uns 16 bilhões de dólares. Mais perguntas que respostas Durante o evento, houve momentos e ausências notáveis. A Embaixada do Brasil, convidada com um mês de antecedência, avisou na véspera que não poderia enviar representante. Membros de comunidades da área afetada indagaram por que não se aproveitava a forte declividade dos Andes para colocar centrais hidrelétricas em série, a fio d’água: ninguém soube responder. Perguntas simples como “Isso já está decidido?” ou “Quem decidiu? Qual ministério assinou?” também ficaram sem resposta. Os hidrólogos presentes perguntaram sobre a série histórica de vazão dos rios a serem represados: não há. Só existem dados para 2008! A rede de monitoração foi desmantelada durante os governos neoliberais anteriores. Portanto, é impossível prever por quanto tempo as represas poderão gerar energia até serem irremediavelmente assoreadas. Muito menos estimar o impacto das mudanças climáticas globais sobre seu prazo de validade.
Como se não bastasse, Inambari vai alagar boa parte de um parque nacional situado em área de megadiversidade e deslocar cerca de 900 famílias de diferentes grupos indígenas. Seu reservatório incluirá áreas de rio atualmente sujeitas a intensa garimpagem de ouro e, portanto, contaminação por mercúrio e – a cereja no sundae – irá alagar cerca de 150 km da estrada transoceânica, recém-asfaltada, em um belo exemplo de eficiente coordenação intersetorial. Também fiquei sabendo que o Ministério do Meio Ambiente do Peru tem apenas um aninho de vida. Palmas para ele – e figas, patuás, água benta, shalom e tudo mais, porque ele vai precisar. Eu não sabia. E você, sabia? Curiosamente, essas importantes notícias foram muito pouco divulgadas no Peru. E no Brasil? Leio jornal todo dia, me interesso pelo assunto e não tinha registro de nada disso. Ao voltar para nosso novo-rico e novo-imperialista país, corri atrás do prejuízo e descobri que os presidentes dos dois países se encontraram no Acre em abril de 2009 e assinaram diversos acordos de cooperação. O presidente Lula, falando em um fórum de empresários do Brasil e do Peru, declarou que o governo brasileiro tem interesse em financiar, por meio do BNDES, a parceria entre a Eletrobrás e a empresa de energia do Peru para a construção de hidrelétricas (Isabel Braga, O Globo Online, 28/04/09). Na mesma fonte, lemos en passant que, ainda em 2008, o presidente peruano Alan García mostrou a disposição do país em construir seis hidrelétricas em seu território, para fornecimento de energia ao Brasil e com financiamento do BNDES. Fuçando um pouco mais a web, encontro sem dificuldade um texto de Marc Dourojeanni, ex-professor e decano da Faculdade Florestal da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru, e Diretor Geral Florestal desse país, publicado em 04/07/2009 no jornal A Gazeta On-line, do Acre, que nos informa que a iniciativa já percorreu um longo caminho que incluiu a instalação, no Peru, de duas novas empresas formadas por consórcios brasileiros. A primeira é a Empresa de Generación Eléctrica Amazonas Sur, formada por empresas privadas de estudos lideradas pela brasileira Engevix, e a segunda é a Inambari Geração de Energia, que inclui Eletrobrás, Furnas e OAS. Informações divulgadas pelas próprias empresas anunciam que a Empresa de Generación Eléctrica Amazonas Sur já estaria desenvolvendo os estudos para a obra do Inambari, com base em uma resolução ministerial de junho de 2008. A Inambari Geração de Energia, por sua vez, já contaria com um crédito de 2,5 bilhões de dólares do BNDES para trabalhar. Seriam essas as “empresas de energia do Peru”? Não devem ter tido muito trabalho. Afinal, as seis hidrelétricas foram escolhidas dentro da lista de 14 pontos prioritários para geração de hidreletricidade na Amazônia Alta do Peru, apontados em estudos dos anos 1970 financiados pelo governo alemão (por meio da agência de cooperação GtZ) e pelo Banco Mundial. Se este é o retrospecto, então anunciar em grande pompa, em 28/04/09, que os presidentes dos dois países assinaram um memorando para a criação de uma comissão de estudos da viabilidade do projeto é, digamos, de um humor duvidoso, para ser bem-educado. Tudo já está resolvido, dimensionado, financiado, partilhado e alguém ainda duvida da viabilidade? Fala sério! O resto é formalidade, especialmente os estudos ambientais. Serão realizados e não mudarão absolutamente nada, mesmo porque as obras já estarão em curso, como as das hidrelétricas do rio Madeira. Resolvi então pesquisar – ai de mim – datas posteriores a 28/04/09 e soube – maldita internet! – que, em 29/04/09, nosso presidente, ainda no Acre, reclamou das exigências ambientais para a realização ou finalização de obras públicas, citando o caso da perereca que teria paralisado obras importantes por 7 meses à espera de um veredicto sobre sua eventual condição de espécie em extinção. Entendi: se estamos parasitando o Peru é culpa da perereca. Pelo jeito, lá não há pererecas, ou lá elas não têm porta-voz. Naturalmente, as tais obras tinham muitas outras condicionantes ambientais, mas essas não arrancariam risos da platéia-empresária. E precisava mesmo?
E o texto podia ficar por aqui. Se já doeu muito, feche a página, porque o pior está por vir. Parece que não precisava de nada disso. Isso mesmo. Não precisamos transferir a nossos vizinhos mais vulneráveis vultosos passivos socioambientais e bilionárias dívidas e ainda arriscar ficar às escuras se tudo der errado, como pode dar. Em reportagem de Eduardo Geraque publicada em 27/04/07 no jornal Folha de São Paulo, Célio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP e autor de um dos capítulos do Dossiê Energia, lançado em 26/04/2007 pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, sustenta que “o Brasil não tem necessidade de construir mais hidrelétricas para atingir a meta do PAC de aumentar a oferta de energia elétrica em 12.300 megawatts até 2010”. “O Brasil tem hoje aproximadamente 70 usinas com mais de 20 anos que poderiam sofrer uma repotenciação [troca das turbinas]", explica. Se isso fosse feito, mais ou menos 60% da meta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) já seriam contemplados: "O custo é bem menor comparado à construção de novas usinas, que absorvem 60% dos investimentos somente em obras civis", lembra. Os 40% restantes da meta do PAC poderiam ser obtidos sem nenhuma nova obra civil: "O próprio governo assume que as perdas do setor elétrico nacional hoje, desde a transmissão até chegar ao domicílio ou ao eventual consumidor industrial, são da ordem de 15%.” Para Bermann, se houvesse um esforço para que o desperdício fosse reduzido para 10%, isso já seria suficiente para fechar a conta. Os processos de repotenciação renderiam quase 8.000 megawatts e a redução do desperdício, mais 4.850 megawatts. Segundo Bermann, esse processo de repotenciação não ocorreu até hoje no país por causa da cultura das megaobras: "Parece que o governo prefere construir grandes usinas, porque elas acabam dando mais visibilidade."

Bagre não é salmão e escada não é solução

O mote da coluna do mês passado eram os grandes bagres migradores, execrados por alguns por atrasar o licenciamento das grandes hidrelétricas em construção nos rios Madeira, Jirau e Santo Antonio. Grandes represas são obstáculos intransponíveis para peixes migradores devido à altura das barragens. Na ausência de barragens, essas espécies empreendem anualmente viagens de centenas ou mesmo milhares de quilômetros rio acima, em busca de áreas adequadas para a desova, normalmente situadas em afluentes nas cabeceiras dos rios: é a chamada piracema. Os ovos e larvas fazem a viagem em sentido contrário, levados pela correnteza, amadurecendo ao longo do caminho de água turbulenta. A presença de uma barragem é problemática tanto para a viagem de ida como para a de volta. Os adultos viajando rio acima se exaurem e se ferem na tentativa inútil de transpor o sangradouro ou – pior – de atravessar as turbinas na contramão. Eles não falam nossa língua e, mesmo que falassem, tentar avisá-los seria tão inútil quanto avisar um inseto de que lâmpada incandescente não é sol. Afinal, voar em direção à luz é da natureza dos insetos, nadar rio acima é da natureza dos peixes migradores, e isso vem dando certo para eles há milhões de anos. Com uma barragem, a área logo a jusante se torna um grande refeitório para predadores como aves aquáticas, peixes carnívoros, botos e jacarés, que se fartarão de peixes exaustos, feridos e muito fáceis de apanhar. Isso não é necessariamente um favor, já que, a longo prazo, compromete a manutenção de suas habilidades competitivas. E os ovos e larvas viajando rio abaixo? Se não morrerem no grande lago de água parada e frequentemente sem oxigênio chamado de reservatório ou represa, vão virar suco ao passar pelo liquidificador das turbinas. Seus problemas acabaram! Mas que colunista pessimista este! Há uma solução de engenharia importada, simples, barata e que dá certo: a escada de peixes! Como toda escada, ela transforma um grande obstáculo – intransponível em um passo só – em uma série de pequenos degraus sucessivos e transponíveis.
É importada porque foi desenvolvida no hemisfério Norte para facilitar a transposição das represas por salmões, que são grandes migradores, mais carismáticos que os bagres: quem nunca viu um documentário ou um desenho animado representando ursos bonachões se banqueteando de salmão à margem de uma cachoeira?. Para essa finalidade, elas funcionam bastante bem. Parece, portanto, uma excelente ideia, não é mesmo? Eu, biólogo, sempre estive convencido disso. Até semanas atrás, quando conheci um outro biólogo, Miguel Petrere Jr., do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), especialista em peixes e grande estudioso de represas tropicais – veja sua extensa revisão sobre “Peixes em grandes reservatórios tropicais na América do Sul” publicada na revista Lakes & Reservoirs: Research and Management. Miguel plantou a semente da dúvida e me indicou o trabalho de Fernando M. Pelicice e Ângelo A. Agostinho, dois colegas do Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura (Nupélia), vinculado à Universidade Estadual de Maringá (UEM). O artigo em questão – “Instalações para a passagem de peixes como armadilhas ecológicas em grandes rios neotropicais” – foi publicado em 2008 na revista Conservation Biology e divulgado em reportagem de Claudio Angelo na Folha de S. Paulo de 10 de fevereiro daquele ano. Resumidamente, o estudo conclui que as escadas para peixe aumentam os riscos de extinção e funcionam como uma "armadilha ecológica", na medida em que atraem cardumes para ambientes mais pobres e prejudicam sua reprodução. Os autores analisam casos de escadas instaladas na usina de Porto Primavera, no rio Paraná, e no complexo de hidrelétricas do rio Paranapanema. Eles concluíram que os dispositivos nos dois rios causaram impactos tão grandes à fauna que deveriam ser desativados. No caso das usinas de Canoas 1 e 2, no Paranapanema, as escadas causaram um colapso na pesca a jusante dos reservatórios. No primeiro ano de operação das escadas, em 2001, conta Pelicice, "a quantidade de peixes que subiu foi enorme". No segundo ano, no entanto, a piracema entrou em colapso, sinal de que os peixes que subiram não desceram depois. Isso ocorreria porque os adultos que sobrevivem ao corredor polonês da escada não encontram locais adequados para a desova ou o desenvolvimento dos alevinos, já que os ambientes a montante da barragem são ecologicamente mais pobres.

O efeito gafanhoto

Em seu estado de equilíbrio, a natureza parece ter solução para todos os problemas que nos afligem, como o de se livrar de resíduos. As plantas absorvem nutrientes do solo e sintetizam alimento para si e para o restante da cadeia alimentar a partir de carbono atmosférico (CO 2 ), luz e água. Os herbívoros e carnívoros consomem a energia das plantas e decompõem o alimento em elementos simples como CO 2 , água e compostos minerais, que podem ser utilizados pelas plantas para recomeçar tudo outra vez. Restos e raspas são consumidos por vermes, insetos, bactérias e fungos. Só sobram os ossos e dentes que nos permitem reconstituir o passado da biosfera. Essa é uma grande simplificação, claro, mas aponta para um fato fundamental: o ciclo de matéria é fechado, a matéria muda de forma e lugar, mas nunca desaparece. O ciclo da energia, ao contrário, é aberto, e move o ciclo da matéria como a água do rio move o moinho. Isso significa que nunca podemos nos livrar totalmente daquilo que lançamos no ambiente, sejam compostos naturais como os metais, que extraímos de depósitos inertes e emitimos para ar, água, solos e, portanto, alimentos, ou as milhares de substâncias sintéticas que inventamos para os mais diversos fins e que acabam sendo lançadas no ambiente, porque... o ciclo da matéria é fechado. Nos preocupamos, com boas razões, com os rejeitos radioativos que levarão séculos para decair, mas esquecemos que o carbono, o chumbo, o arsênico e tantos outros são eternos. Dispersão de poluentes. Um bom exemplo dos problemas que esse ciclo nos traz é a dispersão ambiental dos compostos organoclorados, como o DDT (sigla para dicloro-difenil-tricloroetano), inseticida hoje banido para uso doméstico e agrícola e admitido apenas para campanhas de saúde pública em caso de emergência sanitária. Nos anos 1960, seu uso doméstico era intenso no Brasil, para controle de pulgas, piolhos, mosquitos, baratas etc. A partir da década de 1970, com a sua proibição, o DDT foi substituído por substâncias mais caras, menos tóxicas e, sobretudo, menos persistentes. Embora o composto não seja mais usado, o termo dedetização continua sendo de uso corrente. A persistência é um dos principais problemas dos organoclorados e seus produtos de degradação. Anos após seu banimento, continuamos detectando essas substâncias no leite materno humano, em peixes e outros alimentos, mesmo em áreas remotas do planeta, porque são resistentes às vias de degradação naturais. O DDT era considerado uma maravilha tecnológica, até aparecerem os efeitos em aves – em particular sobre a águia calva, símbolo nacional americano –, descritos por Raquel Carsson em seu livro seminal Primavera silenciosa. Silenciosa porque não havia mais aves que a cantassem. Os primeiros estudos sobre a dispersão desses poluentes analisavam amostras de áreas contaminadas, mas, para avaliar os resultados, era preciso compará-los com aqueles obtidos em áreas remotas, onde supostamente as concentrações seriam muito mais baixas.
Qual não foi a surpresa quando se constatou que ocorria exatamente o contrário! Nas áreas mais frias do planeta, como as áreas polares ou de maior altitude, os níveis de DDT em carnívoros eram muito mais elevados do que em carnívoros das áreas contaminadas, embora esses compostos nunca tivessem sido usados naquelas regiões. A lógica por trás disso é que esses compostos são voláteis e emitidos mais intensamente para a atmosfera em áreas mais quentes. Eles então são transportados pelos ventos e condensam-se em áreas mais frias, depositando-se novamente no ambiente até a próxima oportunidade de volatilização. Assim, haveria uma destilação global desses poluentes, que iriam se dirigindo aos saltos para as áreas polares ou o topo das montanhas – daí o nome “efeito gafanhoto” que dá titulo a esta coluna. Foi assim que os inseticidas foram parar no Ártico. Persistência que cruza fronteiras Os inseticidas domésticos atuais são de baixa persistência e menor toxicidade que o DDT, mas diversos poluentes orgânicos de uso atual continuam pulando fronteiras por aí, sempre na companhia dos poluentes persistentes já banidos, mas que continuam circulando, porque... são persistentes, ora. Não é a toa que está na moda usar papel reciclado e não branqueado. Derruba menos florestas por ser reciclado e não requer uso de cloro por não ser branqueado. Por que o fato de não adicionar cloro é importante? Porque a combinação de cloro com compostos orgânicos é justamente o que confere a esses produtos poluentes suas características, incluindo a persistência. No tratamento da água para consumo, por exemplo, adicionamos cloro à água como biocida para controlar infecções. Mas o cloro se combina com a matéria orgânica dissolvida e forma compostos organoclorados “naturais”, que têm em comum com os sintéticos os efeitos neurotóxicos, hepatotóxicos, de disrupção endócrina e cancerização. Mas esses compostos estão em concentrações muito baixas, assim como todos os demais poluentes da sopa tóxica diluída que inalamos e ingerimos. Então tudo bem, certo? Não, nada bem. Isso porque muitos poluentes exibem o que chamamos de biomagnificação: o que o ambiente dilui, às vezes a cadeia alimentar concentra.

E a discussão ambiental chega à cozinha

Tenho saudades de uns poucos anos atrás, em que as previsões sobre o aquecimento global eram modestas, algo como 0,5 a 1 ºC em um século. Já em 2007, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) estimava um aumento de 1,5 a 4 ºC no mesmo período. Em setembro de 2007, o Centro Hadley, no Reino Unido, com base em estudos sobre clima, previu aumento de temperatura de até 8 ºC. Mas não em um século, e sim em 50 anos. Então talvez o aquecimento acabe sendo superior a 8 ºC, e em um período inferior a 50 anos. O problema deixou de ser daquele bisneto(a) que você provavelmente não iria conhecer mesmo, e passou a ser uma ameaça para você e todos nós. Não é à toa que as seguradoras apoiaram o IPCC e outros grupos de pesquisa. Elas querem saber o que vem pela frente e quanto vai custar a trombada. Mas esta não é mais uma coluna pessimista. Em dezembro ocorrerá em Copenhagen, na Dinamarca, a cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU), que deve costurar um acordo para substituir o Protocolo de Quioto, cuja vigência expira em 2012. Terminou há pouco em Bangkok, na Tailândia, uma rodada de negociações sobre aquecimento global da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima. E no Brasil?
Meio atabalhoadamente, o debate por aqui andou, e decisões importantes foram tomadas. Primeiro lançou-se um plano nacional de combate às mudanças climáticas bem ruinzinho, que não fixava metas nem prazos. Porém, em fins de setembro, o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou o compromisso, respaldado pelo Presidente Lula, de reduzir o desmatamento na Amazônia em 80% até 2020. Metas e prazos que, se cumpridos, evitarão o lançamento de cerca de 5 bilhões de toneladas de CO 2 na atmosfera. Note bem: eu disse se cumpridos, não compridos. Mas, a menos de dois meses da cúpula de Copenhagen, não há um consenso no seio do governo quanto às propostas a serem defendidas pelo país na importante ocasião. A negociação envolve a Casa Civil, o Ministério da Ciência e Tecnologia, o do Meio Ambiente e o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, como representante da sociedade civil. Só há consenso sobre as metas de desmatamento na Amazônia e sobre a necessidade de os países desenvolvidos reduzirem de 25% a 40% suas emissões. Essa é a redução que o IPCC sugere para evitar um aquecimento acima de 2 ºC até 2020. Minc propõe também que as emissões brasileiras de gases de efeito estufa se estabilizem em 2020. Alguns argumentam que isso exigiria 10 bilhões de dólares de ajuda externa, mas a quantia é a mesma que os ministérios do Meio Ambiente e da Fazenda esperam arrecadar por meio da proposta, apoiada por ambos, de gerar créditos de carbono com a redução da degradação florestal. Discussão saudável e instrutiva A discussão pode estar algo atrasada, mas é saudável e muito instrutiva. Um dos aspectos mais importantes desse debate é que ele cria uma cultura de inventário e diagnóstico: as empresas estão se capacitando para inventariar suas emissões e discutindo custos e estratégias de redução. Vinte e duas grandes empresas aderiram, sob coordenação da Fundação Getúlio Vargas, ao Programa Brasileiro GHG Protocol, que cria um padrão para os inventários de emissão de gases de efeito estufa.
Pelo lado instrutivo, ficamos sabendo que a exploração do pré-sal pode quadruplicar as emissões de CO 2 da Petrobras, atual campeã brasileira na modalidade. Estas passariam de 51 para 200 milhões de toneladas. E sem inventário não se saberia nada disso. Setores industriais como o de bebidas não alcoólicas estão preparando seu Diagnóstico de Sustentabilidade e Meio Ambiente, que deve ficar pronto... em dezembro. Durante a cúpula de Copenhagen, será atribuído um prêmio, uma espécie de Oscar ao contrário, às piores empresas do mundo na área ambiental. A indicação dos candidatos brasileiros ao prêmio caberá ao Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Os jurados estarão atentos ao greenwash, o marketing verde, de empresas que se apresentam como ambientalmente virtuosas em megacampanhas publicitárias e esgotam aí seu esforço ecológico. De fato, o marketing ecológico parece ter se tornado obrigatório e alastrou-se como uma praga. Já reparou como, por todo lado, as petroleiras viraram companhias de energia, os bancos agora são do planeta e as montadoras reinventam caminhos, embora para os mesmos carros, alguns cada vez mais verdes, e amarelos? Será que, juntando todo o material impresso das campanhas publicitárias que exibem folhas, árvores, mato ou floresta, daria para recobrir o que se queimou de floresta amazônica?

Uso sustentável de energia

Os prejuízos ambientais provocados por ações humanas tornaram-se uma das principais preocupações da sociedade atual. Com o objetivo de sensibilizar a população sobre a importância desse tema, a Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS) lançou, em setembro último, o projeto denominado Uso Sustentável de Energia (USE), que envolverá campanha de conscientização, capacitação de técnicos-administrativos e professores de todas as unidades acadêmicas, elaboração do Manual de economia de energia e de uma página virtual. A iniciativa inclui também uma série de projetos, como o do telhado verde, em que as tradicionais telhas para cobrir casas e edificações são substituídas por uma camada de vegetação. O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e membro da USE Márcio D’Avila adverte que determinar qual o melhor modelo de telhado a ser usado exige a análise de vários aspectos. “Estamos pesquisando diversas espécies de plantas”, conta. “É importante que elas resistam bem aos períodos de estiagem. As flores também são interessantes para atrair a fauna, como os insetos polinizadores (que aumentam a capacidade das plantas de se reproduzir com mais eficiência)”, diz, lembrando que o substrato (composição da terra), o nível de retenção da água da chuva e o peso que cada estrutura arquitetônica precisa suportar são outros itens a serem considerados. Da telha para o telhado verde Para mostrar quais os benefícios de substituir a telha comum pelo telhado verde, a Prefeitura Universitária, a Divisão de Obras, a FAU e o Museu de Ciências e Tecnologia (MCT) da PUCRS desenvolveram três protótipos, cada um deles com diferentes tipos de telhado: o verde, o de fibrocimento e o de zinco. Segundo D’Avila, com o telhado verde, a temperatura interna da casa permaneceu mais constante. “A cobertura vegetal evita, por exemplo, o surgimento de ilhas de calor nos centros urbanos. Em dias quentes, geralmente evitamos permanecer em locais onde a superfície é composta por materiais que retêm o calor gerado pelos raios solares, como o asfalto, o concreto, entre outros. Já o telhado verde diminui essa retenção de calor”, compara. Redução dos gastos de energia Um dos objetivos do USE é reduzir os gastos com a energia elétrica no campus central da universidade. Para isso, o comitê responsável pelo projeto – formado pelas faculdades de Arquitetura e Urbanismo e de Engenharia, além da Prefeitura Universitária e da Divisão de Obras – verifica o consumo em todos os prédios. O diretor do MCT, professor Emilio Jeckel Neto, lembra que o telhado verde reduziu os gastos com o ar-condicionado, pela maior eficiência do equipamento em um ambiente com temperatura estável. A pesquisa, iniciada em novembro do ano passado, envolve hoje um grande número de unidades acadêmicas. A previsão do comitê é que, nos próximos seis meses, as primeiras experiências com o telhado verde sejam estendidas a todos os prédios do campus.

Universo acelerado sem energia escura?

Há cerca de 10 anos, resultados baseados nas observações de estrelas que chegavam ao final da vida mostraram que o universo não só estava se expandindo, mas fazia isso de modo acelerado. Foi uma descoberta classificada como revolucionária. Esses resultados levaram boa parte dos cosmólogos a admitir que cerca de 70% do universo eram formados pela chamada energia escura, cuja natureza ainda é desconhecida. De lá para cá, muita pesquisa foi feita sobre o assunto. Agora, dois pesquisadores norte-americanos apresentam um modelo de universo acelerado que dispensa a existência dessa misteriosa forma de energia. Os resultados foram publicados na Proceedings of the National Academy of Sciences.
A observação de que o universo está em expansão, feita pelo astrônomo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), em 1929, é considerada um dos principais marcos da história do pensamento humano. Esse resultado trouxe a cosmologia para o campo das ciências físicas: estavam confirmadas as surpreendentes previsões teóricas do cosmólogo russo Alexander Friedmann (1888-1925) realizadas sete anos antes, baseadas na teoria da relatividade geral, do físico de origem alemã Albert Einstein (1879-1955). Nelas, Friedmann sugeria a expansão do espaço tridimensional cosmológico, que carregaria consigo todas as galáxias nele inseridas – algo que espantou o próprio Einstein. Hubble mediu também a velocidade com que o espaço se expandia. Desde então, as medidas dessa expansão foram sendo refinadas, e esperava-se que pudéssemos não só obter sua velocidade com maior precisão, mas também sua aceleração. O quadro na mente de todos os cosmólogos era o de um universo se expandindo devido à ocorrência de uma grande explosão no passado, mas que estivesse desacelerando devido à atração gravitacional existente entre os constituintes do universo: afinal, em nossa experiência cotidiana, percebemos que a força gravitacional entre a matéria usual é sempre atrativa. Para medir essa aceleração (ou desaceleração, como se esperava), precisava-se medir o afastamento de galáxias muito mais distantes (e, portanto, mais afastadas no tempo, pois a luz que elas nos emitem demora mais para nos alcançar). Isso foi obtido por meio da observação, nessas galáxias, da ocorrência de supernovas (explosão altamente luminosa de estrelas bastante massivas no estágio final de sua evolução). O resultado dessa medida foi altamente surpreendente e primeiramente divulgado em 1998: o universo está se acelerando e não desacelerando! A primeira explicação proposta para esse resultado foi sugerir a existência de um tipo de energia – dominante no universo atual e totalmente diferente daquela que estamos acostumados a observar – que exerceria uma força gravitacional repulsiva, causando essa aceleração. Como não podemos enxergar essa energia, deu-se a ela o nome de energia escura. Vários candidatos a energia escura foram propostos: constante cosmológica, quintessência, campo fantômico etc. Nenhum deles com motivação teórica convincente. A seguir, pensou-se que a relatividade geral clássica estaria errada nas escalas de distância em que essa aceleração se observa. Foram, então, propostos vários tipos de generalização dessa teoria; a existência de dimensões espaciais, além das três que observamos; efeitos quânticos em larga escala etc. Essas modificações também parecem arbitrárias e, portanto, ainda pouco convincentes. Finalmente, pensou-se em uma explicação mais conservadora, mas nem por isso menos desafiadora. Na verdade, não haveria problema algum com a relatividade geral, nem existiria energia escura. O problema estaria em assumir que o complexo universo no qual vivemos hoje possa ser representado, mesmo em largas escalas, por um modelo tão simples como o que Friedmann propôs: i) com uma distribuição homogênea de massa; ii) com as mesmas propriedades em todas as direções (ou, dito mais tecnicamente, isotrópico). Devemos, então, procurar soluções mais elaboradas e complexas das equações da relatividade geral que levem em conta o fato de o universo não ser homogêneo hoje. É nessa linha de raciocínio que Blake Temple, da Universidade da Califórnia, e Joel Smoller, da Universidade de Michigan, também nos Estados Unidos, propuseram um conjunto de soluções das equações da relatividade geral que contém a solução de Friedmann como um caso particular – ou seja, a de um universo homogêneo e isotrópico. Os desdobramentos desses cálculos levaram a termos matemáticos suplementares nas equações propostas por Friedmann que induzem uma aparente aceleração do universo, sem a necessidade de nenhuma energia escura. O trabalho de Temple e Smoller ocorre paralelamente a outras tentativas de investigar e explicar a aceleração do universo. Esse tipo de linha de investigação é recente e envolve um aprofundamento do estudo de certos aspectos das equações da relatividade geral até então pouco explorados, devido à grande complexidade matemática deles e à consequente dificuldade de aplicá-los à cosmologia. Qual dessas abordagens poderá responder satisfatoriamente à questão levantada pela surpreendente observação de 1998? Por enquanto, a hipótese mais investigada e aceita é a da existência da energia escura, pois indicações de sua existência aparecem indiretamente em dados observacionais relativos à radiação cósmica de fundo (um ‘eco’ do universo primordial) ou à evolução de estruturas no universo (galáxias, aglomerados de galáxias etc.). A nova linha de investigação para a qual contribuiu o trabalho de Temple e Smoller vem atraindo vários cosmólogos, entre outras coisas por uma razão simples: sabe-se que o tempo que o universo levou para se acelerar não é muito diferente daquele que ele levou para formar suas grandes estruturas. E essa coincidência de escalas temporais, denominada coincidência cósmica, não aparece naturalmente nos modelos de universo em que a aceleração é explicada com base na energia escura. Entretanto, na linha de investigação de Temple e Smoller, essas escalas temporais são próximas, porque os novos termos matemáticos propostos – os que induzem a aceleração do universo – aparecem justamente por causa do surgimento dessas grandes estruturas: a coincidência cósmica estaria então naturalmente explicada. Mas é preciso lembrar que abordagens como a de Temple e Smoller terão necessariamente que explicar dados observacionais relativos à radiação de fundo e à evolução de estruturas no universo. Ou seja, teoria e observação terão que coincidir. De qualquer forma, o mistério envolvendo a observação de 1998 só poderá ser resolvido com muito trabalho teórico, para obter novas previsões, e com boa dose de esforço observacional, para testá-las, como o que será feito no projeto Dark Energy Survey, do qual participa o Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Construções mais seguras e ecológicas

O emprego de vigas híbridas, feitas com lâminas de madeira coladas, concreto e reforço opcional de fibra de vidro, pode aumentar a segurança das construções, pois elas são mais resistentes que as vigas convencionais, feitas só com madeira ou concreto. Pensando em incentivar o uso desse material no país e torná-lo ecologicamente correto, um pesquisador paulista desenvolveu vigas híbridas feitas com madeira extraída de florestas certificadas. “As vigas híbridas são pouco usadas nas construções brasileiras, mas o emprego desse material é uma tendência mundial forte que veio para ficar”, avalia o engenheiro civil José Luiz Miotto, que desenvolveu as novas vigas híbridas em seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP). As vigas são estruturas colocadas horizontalmente para sustentar o peso das construções. Por serem mais resistentes que as vigas compostas somente por um material, as híbridas permitem aumentar o espaço entre os pontos de apoio da construção. O pesquisador acrescenta que, apesar de serem mais indicadas para construções de médio e grande porte, as vigas híbridas podem ser usadas também em pequenas edificações. O diferencial do produto desenvolvido por Miotto é a escolha da matéria-prima para a viga: o eucalipto (espécie híbrida de Eucalyptus grandis e Eucalyptus urophylla) certificado. “Fiz isso para incentivar as pesquisas com madeira proveniente de florestas plantadas”, explica o engenheiro. Segundo ele, a madeira certificada tem pré-requisitos suficientes para amenizar o impacto ambiental das construções, por ser um recurso renovável, reaproveitável e cuja procedência garante a não agressão ao ambiente. Além disso, o eucalipto usado na pesquisa, embora tenha densidade menor do que as madeiras tradicionalmente empregadas em construções (como o ipê e a maçaranduba), não diminui a qualidade das vigas, o que pode reduzir a demanda por madeiras nobres. Combinação de qualidades
Miotto explica que a ideia por trás das vigas híbridas é aproveitar o melhor de cada material usado e compensar suas fraquezas por meio da combinação deles. A madeira é biodegradável e barata, além de ser renovável. Entretanto, ela tem pouca tolerância à tração na presença de defeitos. Para sanar esse problema, entram em cena o concreto e a fibra de vidro, que adicionam, respectivamente, rigidez e resistência à viga. O estudo mostra que o uso do concreto junto com a madeira e a fibra de vidro torna as vigas híbridas 134% mais rígidas e 28% mais resistentes. No total, Miotto produziu 11 vigas com cinco metros de comprimento. O primeiro passo foi confeccionar a parte de madeira laminada colada, composta por 12 lâminas de três centímetros de espessura e nove centímetros de largura cada. No lado da viga que fica voltado para baixo, ele adicionou o reforço de fibra de vidro, com 0,5 milímetros de espessura. Por fim, o concreto foi colocado na parte de cima da viga e ligado a ela por meio de ganchos metálicos. Para Miotto, o Brasil ainda engatinha no emprego de vigas híbridas na construção civil. A pequena tradição de uso desse tipo de estrutura e o número reduzido de empresas fabricantes da madeira laminada colada são as principais causas dessa situação. O resultado é sentido no preço: as vigas híbridas ainda são mais caras que as vigas comuns. Entretanto, o engenheiro destaca que a qualidade e a resistência das estruturas híbridas saltam aos olhos. “Os preços são competitivos em países onde há muitos fabricantes desse material”, acrescenta. “No caso do Brasil, a falta de produtores faz com que o preço seja alto, mas não inviável.”