terça-feira, 3 de novembro de 2009

O doce sabor da vingança

Pela primeira vez, o sentimento de prazer diante do sofrimento de um desafeto foi verificado no cérebro de voluntários humanos em um estudo científico. A reação foi observada pela equipe da psicóloga Tania Singer, da University College London, na Inglaterra, em um jogo comumente usado para testar modelos de cooperação em estudos de economia e neurociência. O experimento mostrou ainda que ações egoístas de uns podem ativar no cérebro de outros áreas ligadas ao desejo de vingança.
A equipe reuniu 32 voluntários e quatro atores disfarçados para jogar uma versão do ‘Dilema do prisioneiro’ (ver “Um clássico da teoria dos jogos”). Na variante proposta por Singer, os indivíduos receberam fichas que representavam dinheiro. Elas podiam ficar guardadas com o jogador ou ser investidas para a obtenção de um possível retorno maior. Para isso, o indivíduo precisava confiar no próximo jogador, que podia devolver uma quantia generosa de fichas ou ficar com todo o lucro. A decisão entre ficar ou não com as fichas cabia aos atores disfarçados. Enquanto uns foram escalados para jogar em cooperação com os adversários, outros jogaram de modo egoísta, guardando as fichas para si.
Na segunda parte do estudo, grupos de três participantes do jogo – um voluntário, um ator altruísta e outro egoísta – foram postos em uma roda, de modo que todos pudessem se ver. Todos receberam choques elétricos na mão. Enquanto o voluntário assistia à punição dos atores, a equipe de psicólogos e neurocientistas monitorava suas reações cerebrais, por meio de ressonâncias magnéticas.
Os pesquisadores perceberam que, em voluntários de ambos os sexos, áreas do cérebro ligadas à dor (região fronto-insular e córtex cingulado anterior) foram ativadas quando jogadores altruístas foram punidos. Já quando os egoístas foram castigados, essas respostas diminuíram, principalmente entre os homens. Ao mesmo tempo, áreas do cérebro ligadas à recompensa e ao desejo de vingança se expressaram com mais intensidade.
Aparentemente, a neurociência acaba de verificar a pertinência do dito popular segundo o qual “pimenta no dos outros é refresco”. Mas os autores do estudo são mais comedidos: “Concluímos que, ao menos no homem, as respostas empáticas são influenciadas pela avaliação do comportamento social das pessoas”, relatam os pesquisadores no artigo publicado na revista Nature desta semana.

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